Oi, mãe!
Já faz um tempo desde que te escrevi pela última vez. Foi logo depois da nossa despedida. Naquele momento, eu tinha decidido criar um espaço como esse porque pensei que seria fácil escrever com frequência.
Que ilusão…
Durante um bom tempo, precisei lidar com a frustração da tua partida. Meus pensamentos eram só de revolta por não te ter mais pra dividir a rotina — mas a verdade é que a nossa rotina já não era mais a mesma havia bastante tempo. Foram anos de luta, de entendimento forçado, de dor. De uma despedida ainda em vida da pessoa com quem eu planejei compartilhar muito mais do que pude.
Depois da nossa despedida, em que até consegui falar algumas poucas palavras bonitas para te homenagear, parece que tudo virou escuridão. A ideia de continuar conversando era muito dolorosa — muito mais do que eu imaginei ser possível — e acabei evitando fazer isso por todo esse tempo. Deixei o bate-papo para momentos mais íntimos: uma oração, uma pequena conversa no banho, um pensamento rápido de “ah, que saudade”…
A ausência dessa interação foi tanta que eu até acabei perdendo o acesso ao antigo espaço que tinha criado. Entre muitas novas inspirações pra voltar a escrever e a rotina cada vez mais corrida, o projeto de mantermos contato foi ficando de lado. Até agora.
Amanhã seria mais um dos teus aniversários. Um dia que a gente sempre comemorou com muita alegria e com a presença de pessoas que gostavam tanto de ti. O 9 de março me traz lembranças muito felizes. Como a vida sempre foi contigo.
Esse ano eu resolvi me aproximar da espiritualidade. Tenho tentado ser uma pessoa de mais fé — aquela fé que eu perdi depois de tanta revolta com a tua partida. E talvez seja por isso que essa vontade de te escrever voltou tão forte. Por isso decidi recomeçar. Me perdoa pelo tempo que passou?
Por hoje, eu só queria dizer que, durante esses quase cinco anos, foram inúmeras as emoções que eu senti. Às vezes parece que faz muito tempo que não nos vemos; outras vezes ainda sinto como se tu fosse voltar a qualquer momento, abrindo a porta, rindo e dizendo que tinha comprado uma blusinha que era a minha cara — enquanto eu reclamava de tu ter gastado dinheiro comigo de novo em vez de comprar algo pra ti.
Tem dias que passam muito rápido por aqui, mas em outros eu ainda sinto uma vontade inexplicável de pegar o telefone e te ligar pra contar algo do meu dia ou perguntar como eu faço pra tirar uma maldita mancha da roupa nova. E como essa vontade de falar não passa, resolvi fazer isso do jeito que sei fazer: escrevendo.
Esse blog não é exatamente um diário, nem exatamente um espaço de cartas. É só um lugar onde, de vez em quando, posso voltar pra continuar uma conversa que sempre foi parte da minha vida. Da nossa vida.
Talvez eu escreva sobre coisas importantes. Talvez sobre coisas completamente banais. Como sempre foi entre a gente.
Hoje é só meu recomeço.
Porque, de algum jeito,
ainda te conto.